Sobre Mother 3
Eu amo muito livros que trazem uma atmosfera única e extremamente específica para o leitor. Quando o autor consegue capturar uma energia quase como tampar um perfume em uma garrafa, tendo-o capturado na natureza. Quando, e não tem propaganda. após o fim da leitura, o leitor rememora nostalgicamente os acontecimentos de uma obra de ficção, esperando o esquecimento que o fará ter vontade de ler aquele livro novamente. Mother 3, embora seja um videogame, tem todas essas qualidades literárias (assim como Tim Rogers uma vez disse), que são ainda mais acentuadas pelas características da mídia singular dos jogos, como sua trilha sonora, seus aspectos visuais e seus elementos interativos. A história do jogo, resumidamente, é sobre uma ilha com vibes interioranas que vai se urbanizando e saindo de um estado de economia da doação para entrar de vez no capitalismo, induzido por forças externas malignas. Com isso, acompanhamos um núcleo de personagens que têm suas vidas familiares radicalmente mudadas e querem parar com esse processo. Eu fiquei bastante obcecado com esse jogo na época em que joguei, em novembro pra janeiro do ano passado. Talvez ainda esteja. Muitas vezes quando aparece uma música do jogo na minha linha do tempo no Twitter, postada pelo perfil @MOTHERVGM, as emoções vêm todas novamente, às vezes até dá calafrios (especialmente qualquer versão da melodia de Mente de um Ladrão, ou o Tema de Amor). Sim, o jogo é nesse nível de bom. Mas além disso, a história de desenvolvimento do jogo é muito interessante e me fascina demais. Originalmente, era para o jogo ser lançado para o Nintendo 64, e, com o roteiro já pronto e muito mais ambicioso do que acabou sendo, iria rivalizar com o Final fantasy VII (pelo menos na minha cabeça!). O jogo em versão beta foi mostrado em eventos oficiais da Nintendo, tendo até demos jogáveis, mas por dificuldades no desenvolvimento ele foi sendo adiado de novo e de novo, até ser cancelado aproximadamente no ano 2000. Após isso, o projeto foi recomeçado do zero anos depois, para o Game Boy Advance, e saiu para essa plataforma no fim de sua vida, em 2006, quando já até tinha o Nintendo DS Lite, seu bissucessor. Talvez por esse atraso ou por apenas ser um jogo com uma história muito estranhona e anticapitalista, ele nunca foi lançado fora do Japão, e foi traduzido por uma comunidade muito dedicada de fãs do mundo todo de forma não-oficial. Eu joguei a tradução de fãs para o português brasileiro, e me diverti muito, recomendo. Além dessa história legal dos fãs traduzindo, tem o mistério de quanto que perdemos da versão original que foi cancelada, também chamada de Earthbound 64. Vez ou outra surgem novas fotos e informações sobre as demos antigas que podiam ser jogadas pelo público em eventos e coisas do tipo. O sonho meu e de todos os fãs é que fosse vazado um cartucho desses que as pessoas jogaram, ou até um build anterior ou mais tardio de desenvolvimento em um desses leaks da Nintendo que rolam pela internet. Provavelmente isso não vai acontecer, mas não custa nada sonhar. O diretor e roteirista do jogo também não planeja escrever nenhuma sequência para a trilogia Mother, infelizmente. Mas como qualquer fanbase que vive de migalhas, a da série Mother faz muito material transformativo. Especialmente os fangames e mods, eles são sempre muito bem feitos e sempre estão fazendo novos. Além disso, há blogs e comunidades virtuais enormes de fãs de Mother, então mesmo os jogos já sendo um tanto velhos, a fanbase está super viva. Se quiser dar uma olhada, todo ano um pessoal faz o Mother Direct, uma conferência online nos moldes do Nintendo Direct para falar sobre fangames de Mother, Mother-likes (sim isso existe mas é uma viagem para outra hora), mods e outras coisas criativas feitas na comunidade. É bastante divertido. Enfim, sobre material transformativo, espero que esse texto tenha te feito se interessar um pouco mais sobre Mother 3 e possivelmente o 1 e o 2 também! E se for jogar o 3, espero que você fique tão vidrado como eu fiquei por ele. É muito bom ser fã de alguma coisa. Fun fact:: o nome desse blog é baseado em um elemento grande do jogo. Girassóis são lindas flores mesmo.
#resenha